Dilma-Orlando-bronca

ASSESSORIA

nov/ 25 /2011

Uma Senhora Bronca (Marcelo Coelho, Folha de S. Paulo, 23 de novembro.)

A presidente Dilma consegue fazer a mágica de ocupar ela própria o lugar da oposição

O telefone é daqueles antigos, sem teclas. Livros em quantidade se espremem nas prateleiras. Sobre a escrivaninha limpa, uma máquina de escrever elétrica. Há também um peso de papel, imitando algo como a estrutura de um átomo.

Estamos por volta de 1980. Mas estamos igualmente no gabinete da “excelentíssima senhora presidenta da República, Dilma Rousseff”, tal como a imagina o site Kibe Loco. É a hora do “pronunciamento oficial” da chefe de Estado -e ponha chefe nisso.

Vestido de Dilma, com um terninho vermelho e sobrancelhas feitas conforme o capricho do momento, o imitador disca várias vezes, infinitas vezes, o número de algum ministro. Logo se impacienta, dá uns tapas no aparelho, e a conversa se estabelece.

O roteiro é basicamente o mesmo. Com forte sotaque mineiro, não tão parecido, afinal, com o da verdadeira Dilma, começa uma bronca formidável.

“Comé que pode uma coisa dessas, meu fio?”, pergunta a presidente ao assessor. Os termos de carinho familiar logo são interrompidos por uma torrente de palavrões, que um apito de censura, quase sempre fora de sincronia, deixa ouvir perfeitamente.
“Vou comer o seu c…, seu safado f… da p…!”. Dilma quase engole o bocal do telefone. “Que p… é essa de propina, Orlando?”

Do outro lado da linha, pode-se imaginar o desespero do interlocutor. “Engole esse choro, Guido. Pa, pa, paaara com isso… Acalmou?”. Terminada a bronca, a “presidenta” volta ao normal. Despede-se do infeliz ministro com “um beijo na alma” ou um “tchau, meu querido”.

Diverti-me, mas a graça do quadro talvez seja menor do que o fascínio que desperta qualquer cena de violência. A sequência de xingamentos vale por si mesma, independentemente da sátira que lhe serve de pretexto.

No mundo real, um assessor do Planalto disse à Folha que as broncas de Dilma não são muito diferentes das que aparecem na imitação do Kibe Loco. Enganava-se quem acreditou que, depois de Lula, seria difícil a uma figura tão sem graça e tecnocrática obter níveis parecidos de aprovação popular.

Claro que tudo depende, em última análise, da situação econômica. Mas, enquanto a crise não chega, o desemprego não sobe e a inflação não cresce, o fato é que o estilo de Dilma Rousseff tem condições de agradar o eleitorado, por razões opostas às que faziam o sucesso de Lula.

A mulher mandona e masculina está longe de ser uma figura indesejável no imaginário geral. Aconteceu com Margaret Thatcher, e tudo indica que o caso se repete com Dilma Rousseff. Por certo, nenhum machão brasileiro ficaria contente de ter uma megera como chefe no escritório. Mas o quadro do Kibe Loco vai ao ponto quando explora um outro tipo de prazer.

A “Dilma” da imitação funciona porque dá bronca não em nós, mas nos engravatados pretensiosos que mandam na gente. Sendo mulher e, portanto, pertencendo imaginariamente ao lado fraco da sociedade, “Dilma” representa quem está por baixo -só que ocupando o topo do poder.

Toda a mágica de Lula -que era a de se apresentar como o pobre, o ignorante, o homem comum capaz de “chegar lá”- despertava forte resistência na classe média. Parecia ilegítimo que pessoa tão desqualificada se tornasse presidente, e, pior, desse certo no governo.

O próprio Lula parecia não acreditar muito no cargo que ocupava. Sua informalidade funcionava bem junto a governantes estrangeiros, e, é claro, nos comícios para a peãozada. No fundo, entretanto, Lula foi mais amado do que admirado, e certamente impor respeito nunca foi o seu forte.

A mágica de Dilma, se cabe o termo, é de outra natureza. Consegue, como Lula nunca fez, anular a estridência da oposição. Isto se deve ao simples fato de que (pelo menos na projeção caricatural do Kibe Loco) ela própria ocupa o lugar da oposição. Xinga os ministros como nenhum tucano teria, hum, c… para fazer. Ao mesmo tempo, preserva o tom de domesticidade que era tão próprio de Lula. Não mais o tiozão desleixado, mas a mãe que dá bronca e põe ordem na bagunça.

Explicam-se assim o telefone antigo, a máquina de escrever, o peso de papel da era atômica. Referem-se não tanto a uma ideologia “pré-histórica”, mas à infância do espectador. O autoritarismo sempre faz sucesso, ainda mais quando se volta contra as autoridades logo abaixo do poleiro.

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