22 mar 2013

ASSESSORIA

Jornal “O Globo”, hoje:

Humor terapêutico (Arthur Dapieve)

O sucesso do canal Porta dos Fundos no YouTube

Os funcionários de uma firma fazem uma espécie de pausa para o chá, todos os dias, a fim de assistir a seus episódios favoritos no Porta dos Fundos. O taxista liga o computador quando chega em casa para esquecer o caos do trânsito vendo dois ou três vídeos do Porta dos Fundos. Este colunista também encerra suas jornadas de trabalho com doses terapêuticas do Porta dos Fundos. Viciei-me.

Porta dos Fundos, explicando aos que têm conexão lenta em Marte, é o canal criado na internet em agosto passado pelos atores Fábio Porchat e Gregorio Duvivier, pelos roteiristas Antônio Tabet (que já brilhava no site Kibe Loco) e João Vicente de Castro, e pelo diretor Ian SBF. Eles, mais um elenco fixo, formado por Clarice Falcão, Júlia Rabello, Letícia Lima, Luís Lobianco, Marcus Majella e Rafael Infante, disponibilizam dois novos esquetes por semana, às segundas e às quintas-feiras.

O campeão de acessos — 5.421.508 (meia-dúzia meus) até o momento em que escrevo — é “Sobre a mesa”, no qual Júlia enumera, impassível, o que quer da vida a Tabet, o marido resmungão. Bem, o que ela quer inclui o time da Nigéria, o Exército de Israel, o cotovelo dobrado do Michael Phelps e bem mais, tudo ao mesmo tempo agora, imagine aí a lambança. Não é apenas pornograficamente engraçado. Faz bem ao casamento: nunca mais reclamei à mesa do jantar por ter abacaxi como sobremesa.

Um dos episódios mais recentes tem a participação de Maitê Proença como Maitê Proença. Chama-se, a propósito, “Maitêndo fundo”. Nele, a atriz entra num set crente de que irá gravar um episódio de “As brasileiras” quando na verdade vai estrelar é um pornô “As brasileirinhas”. Pode-se imaginar o que se diz ali, para fazer Maitê cair na real e entender o que o diretor pretende registrar com ela e com um grande, grande elenco que inclui um gordo tarado e o proverbial anão. Com tanta gente se levando tão a sério, é salutar ver Maitê gozando a própria imagem de mulher fina e elegante.

Durante o longo tempo em que esteve sob censura prévia, o cinema brasileiro podia “transgredir” apenas na linguagem, num mamilo fujão ou na sombra de pelos púbicos (a pornochanchada era uma exacerbação disso). Uma de suas características, então, era o recurso abusivo e artificial a palavrões. O Porta dos Fundos usa palavrão à beça, mas usa com a mesma naturalidade que o usamos cotidianamente. Até onde entendo, o povo brasileiro é o que mais fala palavrões na face da Terra. Enquanto isso, há até quem duvide que haja palavrão em alemão, apesar das palavras compridas.

O meu episódio favorito no Porta dos Fundos, por acaso, não envolve nenhuma espécie de sacanagem. Seu título é “Batalha”. Nele, dois escoceses do século XIII (o confiante Lobianco e o pragmático Duvivier) se reúnem para uma batalha contra “no máximo oito mil ingleses”. O diálogo da dupla praticamente reproduz o de dois cariocas contemporâneos que achavam que iam juntar a maior galera para uma pelada na praia — mas só chegou gente do outro time. Fica aquela coisa malparada, aquele papo furado.

O deslocamento de uma situação no tempo e no espaço é um dos estratagemas clássicos do humor. Como fez o Monty Python ao botar um bando de ingleses pobres do século XX travestidos de hebreus para discutir sobre o que Jesus de fato está dizendo ali adiante, meio longe, no Sermão da Montanha. A trupe é uma das influências declaradas do Porta do Fundos. Aliás, ótima influência, assim como Luis Fernando Verissimo e o americano Mel Brooks (as três convergem para o episódio “Dez mandamentos”).

Porta dos Fundos é engraçado, entre outras razões, porque mistura grosseria e sofisticação. No Brasil, a liberdade de tema, formato e tratamento hoje parece possível só na internet. A TV aberta e até a TV a cabo não se arriscam mais à incorreção política. As pessoas andam suscetíveis demais. No computador, porém, não há margem para o “cliquei por acaso… e me ofendi!” O YouTube ainda pede inscrição e confirmação de idade para o episódio “Filme pornô”, que “pode ser impróprio para alguns usuários”.

Não me parece muito distinto de outros. Será por causa da atriz de biquíni? Outra razão me faz curtir o Porta dos Fundos: é humor desavergonhadamente classe média — a tradicional. Com a ascensão da nova classe média, os olhos cresceram para cima dela. No humor, isso se traduziu na consagração de um “Zorra Total” (no ar desde 1999, quando o processo de redistribuição de renda já estava em marcha, marcha lenta, mas estava). Embora nem de longe rivalize com o horário nobre na Globo, o Porta dos Fundos talvez indique ou que a nova classe média não quer rir apenas dela mesma — e por que haveria de querer? — ou que a tradicional ainda enche estádio.

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